Entrevista com Marcos Franco - o baiano está de volta!

por Gabriel Rocha

Em entrevista ao site Lagarto Negro, o autor de personagens consagrados e responsável pelo Studio Made in Bahia, revela detalhes de sua carreira e anuncia o retorno ao meio independente nacional.

Redentor na arte de Helcio Rogério1- Começamos com uma apresentação. Fale um pouco quem é Marcos Franco e quando começou seu envolvimento com quadrinhos?

Nasci na cidade baiana de Feira de Santana no ano de 1975. Meu primeiro envolvimento com quadrinhos se deu ainda na infância, quando eu nem mesmo sabia ler. Talvez tenha sido motivado pelas séries de TV da época, protagonizadas pelos heróis Marvel/DC... ou que sabe, influenciado pelo marketing que as empresas alimentícias promoviam para conquistar o público infanto-juvenil , vinculando aos seus produtos imagens dos mais variados personagens dos quadrinhos e desenhos animados.

2- Você curte HQs desde a infância , mas num dado momento começou a produzir seu próprio material. Gostaria de falar um pouco sobre esta transição de leitor para criador? Como foi esse processo para você?

No inicio de minha adolescência eu era um colecionador bastante compulsivo, consumia gibis dos mais diversos gêneros e estilos. No entanto, já não estava mais satisfeito em só colecionar, minha obsessão era tanta que em determinado momento eu cheguei à conclusão de que ler somente não era o bastante... era preciso também produzir! Comecei então a criar meus própios personagens, rabiscando seus uniformes, elaborando os históricos e projetando suas primeiras HQs . Era uma coisa bastante tosca e despretensiosa que só acabou ganhando mesmo rumo , depois que conhecido o veterano quadrinista Leônidas Grego . Com ele aprendi a elaborar um roteiro, obtive uma ampla visão do mercado nacional, e o mais importante... tomei conhecimento do lúdico universo dos fanzines!

3- Conte para nós qual foi sua primeira experiência com a produção de fanzines. Foi uma experiência positiva? Como você avalia essa experiência inicial com a produção de fanzines?

O primeiro fanzine que editei foi o mutante , no ano de 1993. Ele trazia uma HQ com o personagem título, produzida por mim, pelo meu primo Teilom Lima e o amigo-irmão Cesar Trindade. Prá ser sincero, essa primeira experiência só serviu mesmo de laboratório, já que o intercâmbio com outros fanzineiros era quase zero e a distribuição acabou restringindo-se apenas ao eixo Feira-Salvador.

4 - Em 1996 surgiu o núcleo de quadrinhos conhecido como Studio Made in Bahia. Gostaria que revelasse como foi a criação desse núcleo, quem esteve envolvido, e quais os objetivos do núcleo?

Criei o Studio Made in Bahia com o intuito de difundir os quadrinhos na cidade e revelar talentos locais. Meu primeiro passo à frente do núcleo foi firmar um convênio com o museu de arte contemporânea da cidade ( entidade administrado e financiado pela prefeitura local ), visando apoio e integração com meio artístico. Essa parceria acabou sendo de extrema valia para os objetivos do núcleo, pois, a direção do órgão além de nos ceder espaço para realização de exposições e mostras de quadrinhos, também acabou financiando a revista independente Brazuca Comics.

5- vocês produziram muitas HQs pelo Studio Made in Bahia. Havia algum gênero de HQ (terror , erótico , super-heróis , ficção etc.) que se destacasse mais entre o material produzido por vocês? Como era a escolha do que seria produzido e como vocês administravam essas escolhas?

Nosso trabalho sempre foi bastante eclético, em momento algum ele esteve condicionado a esse ou aquele estilo, cada autor tinha autonomia e liberdade para trabalhar com o gênero que se deseja. A única restrição era com relação aos quadrinhos eróticos, já que materiais dessa linha estariam sujeitos a censura pela administração do museu.

6- Quais gêneros de HQ que já produziu? E dentre eles existe algum que seja seu preferido na hora de escrever?

Bem...já produzi algum material na linha de humor , em sua maioria para um de meus personagens , o arrasado ; algumas historietas no estilo fantasia , fiz uma HQ teste de mangá para a revista Guerreiros de Tóquio ( assim que enviei o material a revista foi cancelada ), também escrevi terror e muita coisa no gênero aventura ( super-heróis ). Por sinal, dentre todos os gêneros citados esse é o que tenho maior predileção em escrever.

7- Na sua opinião os objetivos do Studio Made in Bahia foram atingidos?

Se observarmos pela quantidade e qualidade de talentos descobertos (quinze no total), acho que sim... só prá citar, uma dessas revelações é o excelente Helcio Rogério. Por sinal, ele já não estaria merecendo uma oportunidade no mercado americano, Helcio de Carvalho?

8- Como é hoje a relação entre os membros do Studio Made in Bahia? Ainda se reúnem?

Infelizmente a maioria dos membros acabou abandonando o barco... alguns por desinteresse mesmo, outros por total falta de tempo. Hoje, eu os vejo apenas esporadicamente (no caso os que ainda residem na cidade), mas nessas raras ocasiões eu ainda incentivo os ociosos a voltarem a produzir.

9- Fora o Studio Made in Bahia, onde mais saíram seus quadrinhos?

Nos fanzines Heróis Brazuca -RN, O Mutante -BA, New Heroes -BA, Jovemania -BA, Voyeur - SC, Risco Total - RJ, Impacto - RJ , Zap -BA, Jovenatrix -SP, Zap mix -BA, Redentor -RN, Action - SP, Made in Bahia - BA , O Mundo Obscuro -RS , crânio e redentor -RN , Pesadelo -PA , Cartoon -SP , Heróis tupiniquins -BA , cabal -SP , Válvula de Escape -SP e boock comics -BA; no prozine Crânio/Velta/Redentor, na revista virtual Campo de Batalha (Nota de observação: o entrevistado se refere ao roteiro da história em quadrinhos Epopéia. Campo de Batalha tem roteiro de Francinildo Sena.) e nas revistas Usina e Impacto Fabricado no Brasil.

10- Você já chegou a ingressar no mercado profissional?

Minhas únicas experiências realmente profissionais ( $ ) foram nas revistas Impacto Fabricado no Brasil e Fantasia e Ficção ( revista em fase de produção à ser lançada no primeiro semestre de 2007 ).

11- De onde vem a inspiração para escrever? Você usa alguma técnica especial para elaborar seus roteiros?

Talvez a palavra mais adequada seja mesmo transpiração e não inspiração, pois, eu apenas extraio para os quadrinhos os fatos corriqueiros do meu próprio dia-a-dia. Utilizo-me da escrita como meio de protesto aos problemas sociais, preconceitos e todo o tipo de injustiça que presencio. Quanto à técnica aplicada, não tem muito mistério, inicio com uma sinopse, onde narro resumidamente todos os fatos da HQ; em seguida defino a quantidade de páginas, executando simultaneamente a separação das cenas; e por fim realizo a separação quadro-a-quadro, onde estabeleço a descrição visual das cenas , narrativas e diálogos.

12- Você escreve roteiros para outras mídias além dos quadrinhos? Tem vontade de escrever para alguma mídia em especial (teatro, cinema, TV, literatura, etc.)?

Até o momento não, mas recentemente fui convidado para roteirizar uma série de curtas caseiros de terror (ao melhor estilo Canibal - Mabuse ), que serão divulgados pela internet. Estou estudando a possibilidade já que essa seria uma boa oportunidade de aprofundar-me em outro tipo de linguagem.

13- Na sua visão, como deve ser a relação ideal de trabalho entre o roteirista e o desenhista, durante a produção de uma HQ?

O ideal mesmo é quando se há uma certa empatia entre os artistas , mas como isso nem sempre é possível , pelo menos deve-se tentar estabelecer uma sintonia entre ambos , para que o trabalho flua naturalmente. O roteirista deve dar liberdade ao desenhista de alterar cenas ou mesmo a quantidade de quadros por páginas, se assim achar necessário ( contanto que não fuja da idéia original ), por sua vez o desenhista também deve estar aberto a sugestões do escritor em relação a sua arte.

14- Como é trabalhar com personagens e criações de terceiros? Existe alguma preferência sua em relação ao trabalho com personagens e criações de terceiros? Comente um pouco sobre seu trabalho nesse sentido.

Não vejo problema algum em trabalhar com personagens de terceiros, desde que esse personagem tenha conteúdo para se trabalhar ( ex.:origem , personalidade , motivações , objetivos , etc.). Quanto a minha preferência, geralmente gosto de trabalhar com aquele personagem ao qual me identifico melhor.

15- Conte como foi sua experiência ao escrever para o Lagarto Negro?

Como frizei na pergunta anterior, prefiro trabalhar com o aquele personagem ao qual me identifico e, sem sombra de dúvidas o Lagarto é um deles! Não só pela indumentária, mas também por todo o contexto que envolve o personagem. O Lagarto nos dar possibilidades de abordar, denunciar e protestar contra uma das maiores pragas que assolam nossa nação... a violência urbana !

16- No roteiro original, o final da HQ Corrupção Infantil era diferente. Alterei uma coisa ou outra em todas as HQs do Lagarto Negro que desenhei, até nas que eu escrevi. Apenas recentemente comecei a deixar e preciosista em relação a outros autores trabalharem com o Lagarto Negro. Como você se sente quando algum espertinho resolve alterar aspectos de seu trabalho? Fui perdoado?! ?

Quando se é o próprio criador que realiza essa mudança, não vejo mal algum nisso... Afinal, uma alteração ou outra às vezes se fazem necessárias, para que o personagem não acabe perdendo algo de sua característica original. Portanto, acho que não há motivo para perdão.

17- Agora vamos falar um pouco sobre suas criações. Em 2006 o Redentor está completando uma década de vida. Existe algo especial planejado para comemorar esta data importante para o personagem?

Como estou retornando agora de um longo período inativo, não deu prá preparar nada em especial... mas, a data não passará totalmente em branco, como presente aos leitores , estarei publicando uma HQ do personagem ( totalmente colorida ), na já citada revista Fantasia e Ficção .

18 - Nunca fiz segredo que de todos os personagens que selecionei para a revista Impacto Fabricado no Brasil, o Redentor era o que eu achava mais interessante. Essa preferência não desmerece os demais. Não se trata de rasgação-de-seda. A arte de Helcio Rogério apenas valorizou ainda mais o material. Vocês chegaram a tentar alguma forma de prosseguir com aquele trabalho? Apresentaram para mais algum editor? Qual a reação dos editores ao contato com esse material?

Depois daquela HQ que foi publicada na revista Impacto Fabricado no Brasil, eu ainda fiz mais dois roteiros interligados. O objetivo era apresentar o trabalho para a revista Graphic Talents da Ed. Escala, visando uma possível publicação. No entanto, o Helcio acabou não podendo concluir as duas últimas partes do trabalho. Conseqüentemente, eu desanimei e o projeto acabou sendo engavetado.

Antigo visual do Redentor na arte de Helcio Rogério19 - Gostava muito do visual agressivo e cheio de espinhos do Redentor em sua concepção original. Qual foi o motivo da reformulação do personagem?

Cheguei à conclusão de que os espinhos tiravam um pouco de sua mobilidade, isso dificultava a realização de alguns movimentos. Além do mais, você não acha que eles poderiam atrapalhariam o herói em um momento mais intimo?

20- A opinião dos leitores influência muito nas suas decisões como autor? Como é lidar com a opinião dos leitores?

Acho que toda opinião, sugestão e até crítica é válida. Apesar de já ter uma concepção formada em relação aos meus personagens, eu sempre estou aberto a sugestões, se um leitor der uma sugestão e eu achar que é legal, não tenha dúvida que eu a utilizarei, sem problemas!

21- Existe alguma relação entre a arma do Redentor e o abebé de oxum ( leque dourado)?

Não, nenhuma! A arma foi inspirada no neutralizador de Rom, o cavaleiro do espaço (personagem da Marvel Comics). Se observar bem notará que o cetro do redentor executa a mesma função dessa arma, ou seja, abre portais dimensionais.

22- Além do Helcio Rogério, quem mais colaborou com as HQs do Redentor?

Os demais artistas foram: André Rebelo - SC, David Silva - BA, l uga - RJ, Valmar Oliveira - BA, Gilberto Borba -RS, Fabiano Ribeiro - BA, Marcio Kurty - PA, Marcelo Salaza - RJ, Diogo Hayashi - SP , Sergio Gama - BA, Adersom Roberto - RS, Teilom Lima - BA, Elton Brunetti - PR, Siddarta Gautamma - BA e Márcio Sennes - SP.

Capa de Heróis Brazucas #423- Sua outra criação importante é a Penitência. Fale sobre a criação desta personagem.

A Penitência ou espírito-da-justiça, é uma entidade mística que se manifesta sempre que ocorre uma grande impunidade. Sua origem remonta-se ao fim do século XIX. Ela foi uma freira carmelita que se opôs a tirania dos latifundiários no sertão baiano. Suas atitudes, um tanto quanto sublevastes, provocaram a ira das autoridades civis e eclesiásticas. Em represaria, o alto clero a destituiu de sua ordenação e em seguida excomungou-a da ordem , sob a alegação de heresia a santa igreja . Depois de deposta, ela passou a ser perseguida severamente por seus desafetos e acabou sendo brutalmente assassinada. No entanto, um século após o fatídico crime, uma misteriosa entidade, motivada pela crueldade e injustiça que se apossaram da humanidade, decidiu trazê-la de volta a vida e imbuí-la numa importante missão... restabelecer o equilíbrio entre o caos e a ordem e punir com severidade os seus transgressores !

24- Percebo uma temática religiosa muito acentuada em seus trabalhos. A própria Penitência tem um aspecto de freira. Ela também usa umas correntes e possui um crucifixo tamanho G. Você já teve algum problema, ou descriminação do seu trabalho por conta dessa temática religiosa?

É verdade, eu realmente gosto de trabalhar com a temática religiosa! Só que a verdadeira essência desses trabalhos não é exaltar ou denegrir essa ou aquela denominação religiosa (cristã ou não). Eu apenas realizo uma sutil crítica ao preconceito e o fanatismo religioso que, muitas vezes extrapolam os limites da razão (um bom exemplo é a situação conflitante do oriente médio). Quanto a pergunta de que se já houve censura ao meu trabalho, acho melhor pular essa...

25- Você permite que sua própria orientação religiosa influa em seus trabalhos?

De forma alguma, já que não possuo religião, mas sim religiosidade!

26- Como devem proceder aqueles que estiverem interessados em conhecer melhor o seu trabalho? Onde podemos encontrar as HQs de sua autoria ?

Capa de Velta - Crânio - RedentorA HQ O Maníaco do Parque, editada originalmente no prozine Crânio/Velta/Redentor está disponível em versão digital através do site: www.hqfiles.hpg.ig.com.br; as HQs Corrupção Infantil e Atos Terroristas (Lagarto Negro e Redentor), que escrevi para o Lagarto, dento em breve estarão disponíveis em download nesta página ( não é mesmo ? ); a revista virtual Campo de Batalha (maior crossover entre super-heróis nacionais já visto) que argumentei em parceria com o Eleniltom Freitas (Nota de observação: o entrevistado se refere ao roteiro da história em quadrinhos Epopéia. Campo de Batalha tem roteiro de Francinildo Sena.), pode ser acessada através do site: www.comicsbr.hpg.ig.com.br e por fim, poderão ainda conhecer um pouco mais do meu trabalho comprando a revista Fantasia e Ficção, aguardem!

27- Muito obrigado pela entrevista, e por emprestar um pouco do seu talento como escritor para as HQs do Lagarto Negro!

Não há de que, também gostaria de agradecê-lo por esse papo saudável, onde tive a oportunidade de expressar um pouco de minhas idéias e projetos!

Contatos com Marcos Franco pelo e-mail: redentor.franco@bol.com.br