| Introdutório -
30/10/07
Fala Edgard, Estou escrevendo para pedir sua
permissão para reproduzir o texto do link:
http://kplus.cosmo.com.br/materia.asp?co=41&rv=Literatura,
no site do Lagarto Negro. Um abraço, Gabriel Rocha
Gabriel,
Pode usar o texto, sem problema. Este texto que fiz para a Editora
Komedi é um resumo bem resumido dos principais temas que
abordei em meu livro "Fanzine", editado pelo Henrique
Magalhães (Marca de Fantasia).
Um abraço, Edgard.
Maravilha! O texto ainda é bem atual e bastante válido,
então vamos lá, boa leitura:
Algo sobre Fanzines - por Edgard Guimarães
O que é Fanzine?
De um modo geral o fanzine é toda publicação
feita pelo fã. Seu nome vem da contração de
duas palavras inglesas e significa literalmente 'revista do fã'
(fanatic magazine). Alguns estudiosos do assunto consideram fanzine
somente a publicação que traz textos, informações,
matérias sobre algum assunto. Quando a publicação
traz produção artística inédita seria
chamada Revista Alternativa. No entanto, o termo fanzine se disseminou
de tal forma que hoje engloba todo tipo de publicação
que tenha caráter amador, que seja feita sem intenção
de lucro, pela simples paixão pelo assunto enfocado.
Assim, são fanzines as publicações que trazem
textos diversos, histórias em quadrinhos do editor e dos
leitores, reprodução de HQs antigas, poesias, divulgação
de bandas independentes, contos, colagens, experimentações
gráficas, enfim, tudo que o editor julgar interessante.
Os fanzines são o resultado da iniciativa e esforço
de pessoas que se propõem a veicular produções
artísticas ou informações sobre elas, que possam
ser reproduzidas e enviadas a outras pessoas, fora das estruturas
comerciais de produção cultural.
O que não é Fanzine!
Obviamente as revistas profissionais que são vendidas nas
bancas não são fanzines. O principal fator de diferenciação
é uma conseqüência do fato de terem grandes tiragens
e darem lucro. A revista profissional é feita em função
de um mercado preexistente. Como precisa vender para se sustentar,
a revista profissional tenta oferecer aquilo que uma parcela do
público leitor quer, ou seja, a revista profissional é
feita em função do leitor. O fanzine, ao contrário,
é a forma de expressão do editor, ou grupo de editores.
O que define a pauta do fanzine é aquilo que seu editor deseja
compartilhar com seus leitores. O fanzine é caracterizado
pela independência do editor. E uma das garantias desta independência
é que muitas vezes o editor mantém o fanzine arcando
com seus prejuízos.
Outra característica do fanzine é que este está
intimamente ligado à atividade cultural, à sua divulgação
e ao prazer de se estar envolvido nela. Os fanzines podem ser de
música, poesia, cinema, quadrinhos, literatura etc. Não
são fanzines os diversos boletins e informativos de associações
comerciais, de ordens religiosas, de organizações
e empresas diversas, mesmo que muitas vezes estes boletins sejam
mantidos dando prejuízo.
Fanzine é revista, ou seja, uma publicação
impressa em que cada leitor pode ter seu exemplar, como denota o
'magazine' que forma seu nome. Atualmente, com o desenvolvimento
da tecnologia, a palavra fanzine já está sendo usada
em trabalhos que não estão na forma de revista, mas
que trazem o tipo de material encontrado nos fanzines impressos.
É o caso de páginas na Internet ou CD-ROMs que são
chamados de fanzine eletrônico.
Quando começou?
No
Brasil, o primeiro fanzine de que se tem registro é o Ficção,
criado por Edson Rontani, em Piracicaba (SP), em 1965. Nesta época
usava-se o termo "boletim" para designar as publicações
amadoras, o termo fanzine só começou a ser usado a
partir de meados da década de 70. A motivação
de Edson Rontani foi manter contato com outros colecionadores de
revistas de quadrinhos para venda e troca de revistas. Mas já
no primeiro número, Edson coloca diversos textos informativos
e uma importantíssima relação das revistas
de quadrinhos publicadas no Brasil desde 1905.
Capa do 1º Fanzine
Por que fazer Fanzine?
Há vários motivos que levam uma pessoa a fazer um
fanzine. O motivo que está na origem do surgimento do fanzine
é o fato da pessoa ser fã de algum assunto (um personagem
de HQ, um ídolo de cinema etc) e querer manter contato com
outros aficionados. Às vezes, a iniciativa começa
com a criação de um fã-clube que depois produz
um boletim. Muitas vezes o editor deseja compartilhar com outros
interessados o material de sua coleção. Alguns autores
desejam divulgar sua própria expressão artística
e o fanzine é o veículo. Muitas vezes, o autor não
tem intenção de aumentar sua tiragem, mas sim produzir
apenas para um círculo de amigos que tem interesse naquele
tipo de manifestação artística. Outros autores
buscam a profissionalização e o fanzine é o
meio de mostrar seu trabalho para outras pessoas ou para os editores
profissionais, e ao mesmo tempo um estímulo para produzir
e aprimorar o trabalho. Em resumo, o editor precisa ter algo a dizer
e a disposição para materializar este desejo na forma
de fanzine, e contatar outras pessoas com interesses comuns.
Como fazer?
A produção de um fanzine abrange as etapas que começam
com a iniciativa de editar, passa pelo trabalho de definir linha
editorial, conseguir o material a ser editado, manter contato com
colaboradores, montar a edição, conseguir a impressão,
até chegar ao resultado final que é a edição
impressa. A elaboração dos originais da edição
depende principalmente da visão do editor, sua capacidade
de criar, de contatar outros criadores, de organizar todo o material
disponível. A edição será reflexo da
formação cultural do editor. Todo tipo de material
é válido para compor a edição (HQs,
poesias, contos, fotos, ilustrações, colagens etc).
Obviamente, o resultado também dependerá dos recursos
materiais que o editor tiver disponíveis, como máquina
de escrever, computadores, scanners etc, mas estes não são
os ingredientes mais importantes na feitura da edição.
O que caracteriza primordialmente um fanzine é a personalidade
que seu editor lhe imprime.
Álbum pode ser Fanzine?
Embora, de um modo geral, os fanzines sejam edições
mais modestas quanto à forma, pois dificilmente seu editor
tem recursos financeiros para custear edições mais
caras, regularmente aparecem verdadeiros álbuns no meio independente.
A apresentação com alta qualidade gráfica não
descaracteriza o fanzine, pois continua sendo uma edição
feita com espírito independente.
Há pirataria em Fanzine?
Uma característica bastante presente nos fanzines é
a republicação de material de outras publicações.
A maior incidência é de histórias em quadrinhos
antigas retiradas de revistas das décadas passadas, histórias
em quadrinhos estrangeiras não publicadas no Brasil, textos
e reportagens tirados de revistas, livros e jornais antigos ou atuais
etc. Esta atitude poderia ser chamada de pirataria, e muitos editores
até se referem a ela por este nome, pois o termo tem um apelo
romântico desde os romances de corsários de séculos
atrás. Assim o nome "pirata" tem aparecido em títulos
de fanzines, nomes de seções e mesmo em pseudônimo
de editor. No entanto, para desilusão dos românticos,
esta atitude dos editores não tem nada de contravenção.
A edição de fanzines não é uma atividade
em que o editor, ao republicar material de autoria de outros, estivesse
obtendo benefícios às custas destes trabalhos. Pelo
contrário, são raros os fanzines em que a receita
consiga alcançar a despesa, sendo que muitas vezes a distribuição
dos exemplares é gratuita para um círculo de amigos.
O que move o editor de fanzine é o desejo de compartilhar
com outras pessoas todo tipo de material a que teve acesso e que
considera importante a divulgação a outros interessados.
Dentro deste espírito, muitas vezes o editor realiza verdadeiras
expedições arqueológicas para trazer a público,
ainda que infelizmente a um público muito reduzido, verdadeiros
tesouros perdidos em publicações há muito esquecidas.
O ponto central da questão é que os fanzines, de forma
desinteressada, têm feito um serviço de resgate e difusão
de aspectos da cultura muitas vezes negligenciados tanto pelas empresas
editoras quanto pelos órgãos governamentais.
Qual a importância dos fanzines?
A primeira e maior importância dos fanzines é a cultural.
Ou seja, os fanzines, de um jeito ou de outro, em maior ou menor
grau, serão incorporados à cultura brasileira. Também
é importante para a formação e amadurecimento
de artistas. Nos aspectos crítico e informativo, a liberdade
criativa dos fanzines permite a veiculação de trabalhos
mais isentos e com maior profundidade. Muito importante é
a iniciativa de resgate de trabalhos e autores brasileiros e estrangeiros
feito pelos editores de fanzine. A inexistência de um mercado
profissional estável para o quadrinhista brasileiro desestimula
tanto a produção dos artistas já maduros quanto
o desenvolvimento de novos talentos na área. Os fanzines
têm promovido, mesmo que de forma bastante limitada, a produção
de quadrinhos brasileiros através do incentivo da publicação,
mesmo não remunerada e de alcance restrito. Por fim, são
também importantes a satisfação pessoal dos
editores e colaboradores de estarem divulgando seus trabalhos, ou
a ampliação de amizades entre os que participam desse
mundo dos fanzines.
Qual a qualidade dos fanzines?
A avaliação de fanzines não pode ser feita
usando os mesmos critérios usados para avaliar trabalhos
veiculados nas publicações profissionais. Muitas vezes
o fanzine é uma obra extremamente pessoal, feita seguindo
diretrizes muito próprias do editor e dirigida a um grupo
específico de leitores. Com tantas especificidades, a obra
está fora da capacidade de apreciação de quem
não pertença ao grupo. Em alguns casos, o Fanzine
é resultado da expressão de pessoas muito jovens,
cujos trabalhos não têm maturidade artística,
e não seria honesto avaliá-los pelos mesmos critérios
usados nos trabalhos profissionais. Ao contrário, a atitude
a ser tomada em relação a quem está procurando
achar seu caminho artístico, aprendendo e evoluindo, deve
ser de orientação e principalmente incentivo. Há,
contudo, no meio independente, artistas completos, produzindo trabalhos
que resistem à avaliação segundo critérios
profissionais, tanto que uma parcela significativa das melhores
HQs e revistas produzidas no Brasil nos últimos trinta anos
se encontram no meio independente.
Quem é o autor?
EDGARD GUIMARÃES colabora com fanzines desde 1979 com textos
sobre quadrinhos, cartuns, ilustrações e HQs. Em 1982,
lançou o primeiro número de seu fanzine PSIU. Nos
anos seguintes publicou outras edições como PSIU Mudo,
Deus, Eco Lógico, os livretos Na Ponta da Língua e
O Escroteiro Entrevistado (em parceria com Laudo), os livros Rubens
Lucchetti & Nico Rosso e Desenquadro. A partir de 1993, começou
a editar junto com Worney A. Souza o Informativo de Quadrinhos Independentes,
de divulgação de fanzines.
Fez palestras e participou de debates sobre fanzines e HQs em eventos
em Curitiba, Piracicaba, Araxá, São Paulo, Rio de
Janeiro, Porto Alegre, Santos, Recife e Belo Horizonte.
Recebeu o Troféu Risco pelo 'Melhor Fanzine Especial' em
88, o Prêmio Jayme Cortez, de incentivo aos quadrinhos, em
93, 94, 95, 96 e 99, e o Troféu Angelo Agostini de 'Melhor
Fanzine' em 95, 96, 97 e 99.
Participou do livro As Histórias em Quadrinhos no Brasil
- Teoria e Prática, com texto teórico sobre fanzine.
Matéria
publicada originalmente em 01/03/2000, retirada de:
http://kplus.cosmo.com.br/materia.asp?co=41&rv=Literatura
Contato com Edgard
Guimarães - Rua Capitão Gomes, 168 - Brasópolis
- MG - cep.: 37530-000 - E-Mail: edgard@ita.br
Saiba mais sobre
a edição de Fanzine pela Marca de Fantasia em:
http://marcadefantasia.com.br/box/fanzine.htm
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